14 de abr de 2012

52

Eu acabei de comentar o livro 'Liberdade'. Ao seu final, na página 576, na autobiografia que escreveu por recomendação de seu terapeuta, Patty disse: "A autobiógrafa tem hoje cinquenta e dois anos, e aparenta a sua idade". Eu li isso, coincidentemente, ontem, e ri. Eu posso dizer a metade da frase, com segurança: eu tenho 'hoje cinquenta e dois anos'; mas não sinto coragem para concluí-la. Na verdade, não faço a menor ideia do que seja aparentar ter a idade que tenho. Quando meus pais fizeram 52 anos, na metade dos anos 1980, eu achava essa idade respeitável. Eu transferia para a idade o respeito que tinha por eles. A proximidade de pais e filhos, hoje, é tão maior que não sei se 52 anos guardam a mesma noção de um estágio respeitável da vida. Ou de um estágio sereno, em que todas as grandes dúvidas existenciais estão superadas. Sou muito confuso com relação a isso. Não tenho mais o sentimento dos vinte anos de que estou perdendo alguma coisa, quando não saio de casa, sábado á noite; mas não troquei essa ansiedade por nada que eu possa definir como muito sereno. Confundo-me. Acumulei diversas outras ansiedades. Não me enquadro na frase do Lula que acha que todo mundo é esquerdista na juventude e direitista na maturidade. Eu sigo com um punhado de velhas ideias que acho cada dia mais novas e todas, se é que isso diz alguma coisa, bem esquerdistas. Ou sou um dinossauro ou a maturidade ainda não me alcançou. Isso é um problema. Já me peguei, várias vezes, tratando por senhor ou senhora pessoas mais novas do que eu, julgando-me, inadvertidamente, mais novo. Convivo, respeito, admiro e me identifico com pessoas com idades tão diferentes que não sei qual régua usar para me medir. Já tenho alguns cabelos brancos, sou hipertenso, vira-e-mexe me pego com o colesterol alto, e não é raro o dia que tenho dores aqui ou ali, o que me diz que já não sou nada moço. Mas gosto de assuntos tão variados que não diria que são todos próprios, propriamente, de um senhor de 52 anos. Talvez por isso me sinta tão inclinado a ler, sempre, Nick Hornby: um cinquentão inglês que escreve como adolescente. Ele me dá a sensação de que a vida passa e eu não necessariamente preciso ir junto. Se o papo de que a vida é como um rio, eu acho que sou daqueles que, por força ou fraqueza, numa curva, se deixa embaraçar num galho de árvore debruçado. O que é aparentar ter a idade que se tem? Eu estava 15 quilos mais gordo, entrei numa fase zen, pela enésima vez, e dizem que rejuvenesci uns 10 anos. O que aparentava antes? Que já era um sexagenário? E agora? Que voltei aos 42? Tudo muito sem nexo. E tudo muito engraçado - ou trágico - quando pessoas que não me conhecem bem se referem a mim com adjetivos, às vezes, generosos, mas que não me pertencem. Aí lembro-me de novo de Hornby. Acho que foi em 'Alta Fidelidade' que ele disse que "eu me sinto como se tivesse feito uma careta e o vento tivesse mudado, e agora eu tenho que passar a vida inteira com esse esgar terrível no rosto". É isso: não sei em que medida meu rosto aparenta ser um autêntico rosto com a idade que tenho ou se ele é apenas uma careta qualquer, uma marca de um erro qualquer do passado. Aliás, erros, como acertos, são coisas que não faltam para quem 'tem hoje cinquenta e dois anos'. Saravá!

11 comentários:

Va disse...

Ei Flavio!!!

PARABENSSSS... Pelo niver!
Muitas Felicidades!

Abração

Va

Eduardo disse...

Parabéns! Gostei muito do texto. Para que contar, se quem passa é o tempo? A vida é vivida no dia-a-dia até ser interrompida sem se levar em conta o tempo. Um abraço!

A. Claret disse...

52 = uma boa ideia + 1

Blog do Flávio de Castro disse...

Va, obrigado pela lembrança! Beijos, Flávio...

Blog do Flávio de Castro disse...

Eduardo, o melhor da vida é isso: a precariedade! Abração, Flávio

Blog do Flávio de Castro disse...

Claret, o perigo está aí: uma boa ideia, mas ultrapassada. Sabe que muitas vezes me sinto assim? As ideias até que são boas, o momento é que está errado... Um dia acerto!

Geyse disse...

Meu querido amigo, 52 é só um número, também acho muito difícil associá-lo a mim.

E como as pessoas nos vêem? Um exemplo: esta semana encontrei com uma amiga que disse que cortou o cabelo porque depois dos 50 não fica bom mulher de cabelos longos. Eu fiquei na dúvida se era uma crítica aos meus, pois aos 50 eu decidi que os deixaria crescer novamente. Te digo que eu estou feliz com minhas longas madeixas... rs... será que fiquei ridícula?

Bom, no mesmo tom do seu post, Sócrates disse: Só sei que nada sei.
Eu concordo e acho que esta certeza de não saber de tudo é sinal dos tempos que se passaram.

Ah... e você ainda não se transformou em um senhor idoso, fique tranquilo, a lei que determina isto (rs) só vai te atingir daqui há 8 anos.

Beijos.
Geyse

Anônimo disse...

Força e Luz!

Sds.
Familia Boi da Manta

ENIO EDUARDO disse...

Parabéns e Forte Abraço Flávio!

Ramon Lamar disse...

Bom, já mandei o abraço via Facebook. Então, só para relembrar, 42 é um bom número!!!

Anônimo disse...

O mais legal de tudo, tudo, tudo, é que você é sempre você mesmo. Nos surpreende, está cheio de novidades, de novos olhares, mas é você mesmo.E isso vai ficar pra sempre.

Obrigada pelo texto, ganhei de presente hoje, e nem é meu níver.

Beijos!!
Disa